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15 out 2026 · Pepon Treinamentos

Quantas ações realmente demandam perícia contábil e bancária no Brasil?

Quantas ações realmente demandam perícia contábil e bancária no Brasil?

Pedro Eugênio Peil de Oliveira Neto (PEPON) · 15 de outubro de 2026

Ninguém mede o mercado em que trabalha

O perito judicial brasileiro decide onde investir seus próximos anos — qual modalidade estudar, em quais comarcas se cadastrar, que software comprar — quase sempre no escuro. Não existe estatística oficial de "quantas perícias contábeis foram determinadas no ano". O CNJ não publica esse dado, e nenhum tribunal estadual divulga a contagem de nomeações por área.

O que existe são camadas de dados públicos que, combinadas, permitem uma estimativa defensável: o acervo e os casos novos do relatório Justiça em Números, as tabelas de assuntos processuais, os painéis de cadastro de peritos e os dados de pagamento de honorários sob a assistência judiciária gratuita.

Este artigo faz esse cruzamento. A conclusão curta: o volume de processos que, pela sua natureza, podem demandar prova pericial contábil ou bancária é da ordem de milhões — e o gargalo nunca foi a falta de demanda.

O universo de onde saem as nomeações: 59 milhões de processos vivos

O relatório Justiça em Números 2026 (ano-base 2025), do CNJ, registra o maior volume de ajuizamentos da série histórica: 40,9 milhões de casos novos em 2025, 3,5% acima de 2024. Na distribuição por segmento, a Justiça Estadual ficou com 28,3 milhões (+4,3%), a Federal com 6,4 milhões (+19,8%) e a Justiça do Trabalho com 5,2 milhões (+6,5%) (análise do relatório).

O acervo pendente caiu para 75,5 milhões de processos, o menor em nove anos. Desses, 16,4 milhões estavam suspensos, sobrestados ou em arquivo provisório — ou seja, 59 milhões de processos estavam em tramitação efetiva ao fim de 2025. É desse universo, e não dos 75,5 milhões, que saem as nomeações de perito.

Três indicadores desse relatório dizem respeito direto ao nosso trabalho:

  1. A fase de execução leva quase o dobro da fase de conhecimento: 4 anos e 9 meses contra 2 anos e 5 meses. É na execução e na liquidação que se concentra a perícia contábil de cálculo, e esse tempo médio é, em boa parte, tempo de perícia parada.
  2. 19.094 magistrados para 40,9 milhões de casos novos. O juiz que nomeia tem 2.100 casos novos por ano na Justiça Estadual; ele não vai ler o laudo duas vezes.
  3. 99,7% dos processos novos são eletrônicos. O perito que ainda não domina extração de dados de autos digitais está competindo em desvantagem estrutural.

A queda do acervo também engana. Ela vem sobretudo da baixa de 4,4 milhões de execuções fiscais (-21,3%), um passivo histórico de baixa recuperabilidade — processos que, em regra, nunca gerariam perícia contábil. O estoque que interessa ao perito não encolheu.

Onde a perícia contábil e bancária aparece

O erro mais comum ao dimensionar esse mercado é reduzi-lo à revisional de contrato bancário. A revisional é a porta de entrada da maioria de nós, mas é só uma das famílias de ações em que o juiz precisa de alguém que saiba ler um extrato, reconstituir um saldo devedor ou avaliar uma quota social.

Contratos bancários e crédito (maior volume)• Revisional: juros, tarifas, capitalização• Liquidação de sentença e apuração do indébito• Ação de exigir contas e prestação de contas• Embargos à execução e à monitória• Crédito rural: cédulas e notas de créditoEmpresas e sociedades• Falência e recuperação judicial• Dissolução societária e apuração de haveres• Responsabilidade de sócios e grupo econômico• Lucros cessantes e perdas e danos
Família e sucessões• Partilha de bens e colação• Inventário: avaliação de quotas sociais• Alimentos: capacidade contributiva• Prestação de contas de tutela e curatelaSetor público e trabalho• PASEP e contas vinculadas• Improbidade e dano ao erário• Contratos administrativos e reequilíbrio• Liquidação trabalhista e verbas rescisórias

O grupo destacado é o de maior volume, e também o mais disputado. Os outros três são menos concorridos: há comarcas inteiras sem um perito habilitado em apuração de haveres ou em liquidação trabalhista complexa.

Nem toda ação dessas famílias terá perícia. Muitas se resolvem por acordo, por julgamento antecipado ou por prova documental. O que a tabela a seguir mede é o universo elegível — o conjunto de processos cuja natureza admite a prova técnica contábil —, não a contagem de nomeações efetivas, que nenhum tribunal publica.

O levantamento: quanto há, por modalidade

ModalidadeUniversoO que o número medeFonte

Contratos (gênero que abriga os bancários)1.775.093Assunto "Obrigações / Espécies de contratos", Justiça Estadual, todos os graus, 2023 — o mais demandado do segmentoConJur / JN 2024
Alimentos864.580Assunto Família/Alimentos, Justiça Estadual, 2023ConJur / JN 2024
Relações de parentesco526.781Assunto Família/Relações de parentesco, Justiça Estadual, 2023ConJur / JN 2024
Revisão de saldos do PASEP124.761Ações em curso no país, número informado pelo próprio Banco do Brasil em dezembro de 2024; um terço ajuizado só em 2024IAF / REsp 2.162.222
Recuperação judicial977 processos (2.466 CNPJs)Pedidos em 2025, maior volume desde 2016; agropecuária com 30,1%Serasa Experian
Falência698 CNPJsPedidos em 2025, queda de 19% sobre 2024Serasa Experian
Justiça do Trabalho5,2 milhõesCasos novos em 2025 (+6,5%); a liquidação trabalhista é, por definição, trabalho de cálculoJN 2026

As linhas não se somam: usam anos-base e critérios diferentes, e algumas se sobrepõem. Mas a ordem de grandeza é clara.

Do outro lado do balcão há cerca de 6.800 peritos contábeis inscritos no CNPC, o cadastro do Conselho Federal de Contabilidade (CFC, 2025). O cadastro é voluntário e não é condição para a nomeação, então o número real de atuantes é maior — mas é a única base nacional existente.

Faça a conta só com o PASEP, a modalidade mais fácil de isolar: 124.761 ações divididas por 6.800 peritos dão 18 processos por perito, de um único tema. Se apenas 3% do 1,7 milhão de ações sobre contratos chegar à prova pericial contábil, são mais 53 mil perícias — outras 8 por perito cadastrado, por ano.

Não falta trabalho. O que falta é outra coisa.

O gargalo não é a demanda — é o preço e o prazo

A tabela de honorários da assistência judiciária gratuita fixa, para Ciências Econômicas e Contábeis, R$ 370,00 por laudo em ação revisional de negócios jurídicos bancários com até quatro contratos, e R$ 300,00 por laudo em demanda de servidor contra União, Estado ou Município (Resolução CNJ 232/2016).

Esses valores são de 2016 e nunca foram corrigidos, apesar de o próprio art. 2º, § 5º da resolução prever reajuste anual pelo IPCA-E. Em agosto de 2025 o CNJ instituiu um grupo de trabalho para atualizar a tabela "considerando a inflação acumulada no período desde sua edição" e criar um mecanismo que evite novas defasagens (Portaria CNJ 251/2025). O reconhecimento oficial da defasagem levou nove anos.

Três consequências práticas que todo perito de tribunal estadual conhece:

  1. O teto de cinco vezes não resolve a AJG. O juiz pode arbitrar até 5× o valor da tabela de forma fundamentada, mas o que exceder o limite tabelado é pago pela parte que requereu a prova (art. 95 do CPC). Na gratuidade, não há essa parte — e o excedente simplesmente não é pago.
  2. O arbitramento abaixo da proposta vira rotina. A proposta fundamentada em horas técnicas é frequentemente cortada sem análise do plano de trabalho, ainda que o art. 2º-A da resolução mande o juiz apreciar justamente esse plano.
  3. O prazo de recebimento não entra em nenhuma estatística. A fase de execução leva 4 anos e 9 meses em média; o perito que aceita um encargo em cumprimento de sentença com honorários ao final está concedendo crédito sem juros e sem garantia.

É por isso que a conta do tópico anterior não se converte em renda. Há 18 processos de PASEP por perito cadastrado, mas boa parte deles paga R$ 300,00 e paga tarde.

O que fazer com esse número

O dado só vale se mudar uma decisão. Três leituras que mudam:

Especializar vale mais do que generalizar. O volume está concentrado em contratos bancários, onde também está a maior concorrência e a tabela mais defasada. Os grupos menos disputados — apuração de haveres, liquidação trabalhista complexa, improbidade, crédito rural — têm menos peritos habilitados e honorários tipicamente arbitrados fora da tabela de AJG, porque as partes têm capacidade de pagamento.

O cadastro em comarca pequena rende mais do que na capital. O número de peritos cadastrados é nacional, mas a distribuição não é. Em comarcas do interior a lista de peritos contábeis frequentemente tem menos de cinco nomes, e muitos sem disponibilidade. A nomeação depende de estar na lista no momento em que o juiz precisa.

Triar a nomeação é parte do ofício. Com 18 processos de um único tema por perito cadastrado, a escassez não é de trabalho: é de tempo. Recusar fundamentadamente um encargo cujos honorários não cobrem as horas técnicas não é arrogância profissional — é a única forma de manter uma prática viável. O art. 157 do CPC permite a escusa, e o art. 2º-A da Resolução 232 dá ao perito o direito de apresentar proposta com plano de trabalho.

Nos próximos artigos deste blog vamos destrinchar cada um desses pontos: como montar uma proposta de honorários que o juízo homologa, como funcionam na prática os cadastros dos tribunais estaduais, e o que fazer quando o arbitramento vem abaixo do custo.

Nota metodológica e fontes

Não existe estatística oficial de perícias contábeis determinadas ou de nomeações por área. Os números acima medem universos de processos cuja natureza admite prova pericial contábil, extraídos de bases públicas de anos-base diferentes (2023 para os assuntos do CNJ, 2024 para o PASEP, 2025 para os demais). Não são somáveis e não equivalem a nomeações. As projeções por perito são ilustrativas e partem de premissas declaradas no texto.

  1. CNJ — Justiça em Números (relatórios 2024, 2025 e 2026)
  2. JUDIT — análise do Justiça em Números 2026
  3. ConJur — assuntos mais demandados na Justiça Estadual
  4. Serasa Experian — Indicador de Falências e Recuperações Judiciais, 2025
  5. IAF — PASEP e o Tema 1.300 do STJ (REsp 2.162.222/PE)
  6. CFC — dados abertos do CNPC, CNAI e CNAI-PJ
  7. CNJ — Resolução 232/2016 e Portaria 251/2025


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